Essas medidas não
devem consistir apenas em fornecer uma soma global, mas também na
aplicação de um pacote de compromissos firmes durante um longo prazo,
com uma contribuição inicial da magnitude de pelo menos US$ 1 bilhão. A
redistribuição de maciços recursos econômicos e humanos que hoje se
destinam ao setor militar poderia satisfazer a maior parte das
necessidades em matéria de segurança climática. Se trataria de dar
prioridade à melhoria da vida no planeta em lugar de outorgá-la ao
poder de matar.
Se a quantia de US$ 1 bilhão pode parecer
irrealmente alta nas atuais circunstâncias, cabe lembrar que é apenas
uma porção do que os Estados Unidos gastaram nas guerras do Iraque e do
Afeganistão e nas atuais tentativas de resgate de suas principais
instituições financeiras e de sua debilitada economia. Na crise da
mudança climática há uma necessidade maior ainda de resgate do que na
crise econômica e financeira, embora ambas estejam intrinsecamente
relacionadas. Somos a civilização mais rica que já existiu. Podemos
realmente aceitar que não estamos em condições de salvar a nós mesmos e
as gerações futuras?
Há boas notícias quanto às promissoras
dimensões do progresso tecnológico que nossa sociedade do conhecimento
produziu. A informação cada vez mais sofisticada e a tecnologia
proporcionam ferramentas que nos permitem entender e manejar os
sistemas complexos que determinam o funcionamento de nossa civilização.
Os países asiáticos melhor sucedidos economicamente, especialmente
Japão e Coréia do Sul, nenhum bem dotado de recursos naturais,
construíram seu êxito graças ao desenvolvimento de tecnologias
avançadas e de altas taxas de investimento em educação e pesquisa. Além
disso, a China faz progressos impressionantes para se transformar em
uma economia baseada no conhecimento e na tecnologia, bem como outros
países asiáticos em diferentes graus.
O que devemos fazer?
Primeiro, necessitamos de um novo modelo econômico que integre as
disciplinas tradicionais com as novas percepções da economia ecológica.
Esta “nova economia” deve proporcionar bases teóricas que incorporem na
política tarifária e nas contas nacionais os verdadeiros valores do
ambiente e dos serviços proporcionados pela natureza. Também deve
incluir um regime fiscal e de regulamentação com incentivos para o
sucesso da sustentabilidade econômica, social e ambiental.
As
ações das pessoas e suas prioridades dependem de sua motivação. Embora
todos estejamos motivados pelo interesse próprio, em um plano mais
profundo, a ética, a moral e os valores espirituais fornecem a base
subjacente de nossa motivação. Grande parte dos atuais conflitos,
violências e “terrorismos” surgem não de motivações econômicas, mas de
ideologias extremas e de preconceitos profundamente arraigados.
Em
uma economia de mercado que leva ao processo de globalização, o mercado
proporciona os sinais que motivam a necessidade do desenvolvimento
sustentável. É necessária uma política impositiva que favoreça os
produtos e os procedimentos mais benéficos para o meio ambiente e a
sociedade e que aumente as taxações dos que são nocivos. Porém, nenhuma
nação pode adotar isoladamente essa política sem prejuízo para sua
própria economia. Isto só pode ser efetivamente realizado no contexto
de um acordo internacional obrigatório para todos os países.
A
próxima Conferência Internacional sobre Mudança Climática, que
acontecerá em dezembro em Copenhague, será uma das mais importantes e
uma das mais difíceis. É um inquietante paradoxo que, enquanto o nosso
futuro depende de graus de cooperação sem precedentes, vivamos uma
crescente cooperação e divisão. Copenhague será um marco muito
importante, talvez decisivo, no caminho para as mudanças fundamentais a
fim de alcançar a segurança climática essencial para nossa
sobrevivência, tanto quanto a sustentabilidade e o progresso que
devemos aspirar. O tempo está se esgotando e não podemos deixar passar
a oportunidade.
Entretanto, devemos nos dar conta de que ainda
existem poucas evidências sobre os governos estarem preparados para
concretizar os compromissos que nos levarão a essa nova era. Os países,
as organizações e as pessoas que participam desse diálogo terão papel
importante em Copenhague. Façamos com que as medidas para conseguir a
segurança climática tenham a mais alta prioridade em nossas vidas, tal
como esperamos que tenham para os governos.
******************************************************* * Maurice Strong
foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Humano de 1972, da Cúpula da Terra de 1992, e primeiro
diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(Pnuma). Direitos exclusivos IPS.
LINKS
Site de Maurice Strong, em inglês http://www.mauricestrong.net
Global Humanitarian Forum, em inglês http://www.ghf-geneva.org/
Artigo
produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento
(Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela
Agência Envolverde.
(Envolverde/Terramérica)
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