Por 20 anos, o Grupo
Votorantin tenta implementar a barragem de Tijuco Alto no rio Ribeira
de Iguape, que corta os estados de São Paulo e Paraná. A resistência
das comunidades locais e das organizações sócio-ambientais tem evitado
a concretização do projeto. Até o final do ano, o Ibama deve emitir a
sua avaliação sobre a viabilidade da obra.
HIDRELÉTRICAS EM DEBATE
Natalia Suzuki - Carta Maior
SÃO
PAULO – Até 2015, o Ministério das Minas e Energia prevê a construção
494 grandes barragens de usinas hidrelétricas em rios de todo o Brasil,
como parte da estratégia do modelo energético a ser desenvolvido nos
próximos anos. Hoje, todos os rios federais já sofreram intervenção com
a construção de barragens, exceto o rio Ribeira de Iguape, localizado
no Vale do Ribeira e que corta os limites dos estados de São Paulo e
Paraná. O projeto da usina hidrelétrica Tijuco Alto ameaça também a
integridade deste último rio.
Após um período de duas décadas
de negociação e resistência por parte das comunidades locais e de
grupos sócio-ambientais, o projeto da hidrelétrica tem sido retomado
agora com mais força. Até a próxima semana, o EIA-RIMA (estudo e
relatório de impacto ambiental) elaborado pela empresa Camargo Correia,
será encaminhado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para que seja avaliado. O
resultado deve ser divulgado num prazo de 45 dias.
“O que chegou
para nós é que a construção da barragem é prioridade no governo
federal. Até o final do ano, será decidido”, afirma Denildo Rodrigues
de Moraes, coordenador nacional do Movimento Atingidos por Barragens
(MAB) e morador da comunidade quilombola de Ivaporunduva, no município
de Eldorado (SP), no Vale do Ribeira. Caso o EIA-RIMA seja aprovado,
uma série de audiências públicas será convocada para a discussão com a
população entre novembro e dezembro.
Os esforços para que a
primeira barragem do complexo de quatro (Tijuco Alto, Itaóca, Funil e
Batatal) seja implantada se arrasta desde o final da década de 80,
quando as primeiras discussões e propostas surgiram por parte da
Companhia Brasileira do Alumínio (CBA), do Grupo Votorantin. O objetivo
é que o empreendimento amplie a capacidade de produção exportação de
alumínio do grupo Votorantim na região do município de Sorocaba (SP) e
expanda a geração energética.
Na época de sua proposição, a
idéia da construção de Tijuco Alto veio quase como uma imposição. “A
decisão chegou de cima para baixo”, lembra Laura Jesus de Moura e
Costa, coordenadora geral do Centro de Estudos, Defesa e Educação
Ambiental (Cedea) e moradora do município de Cerro Azul, no Paraná, um
dos municípios a ser afetado com a construção da barragem.
Laura
recorda que a população decidiu se mobilizar para entender o que era a
obra e como ela afetaria os moradores da região. Contudo, isso não
impediu que houvesse um êxodo populacional. “Com o anúncio de uma obra,
a população de uma cidade pequena cria expectativas”. De acordo com
ela, os moradores da região venderam suas terras, ansiosos pela
incerteza do que aconteceria com a instalação da usina hidrelétrica,
mas também sofreram muita pressão, inclusive por parte da CBA, para
deixarem suas propriedades.
Desordenamento fundiário A
construção da usina suscitou um outro debate: a posse pela terra. Parte
das propriedades são ocupadas há anos por posseiros. “Falta
regularização fundiária, e a CBA se aproveita disso para se apropriar
das terras”, afirma Laura.
“O Vale do Ribeira se empobreceu
totalmente, somente com o anúncio da construção da barragem. A
população deixou de investir nas suas propriedades e o governo deixou
de investir em estradas para escoar a produção de banana, em educação e
moradia, porque diziam: ‘A barragem vai vir e cobrir tudo, por que
investir?’. A CBA tem uma dívida social com o Vale”, afirma Denildo, o
coordenador do MAB.
Adrianópolis, cidade paranaense que também
pode ser atingida pela barragem, esvaziou-se durante a década de 90.
Laura explica que, diferente de Cerro Azul, seus habitantes não se
mobilizaram e acabaram deixando a cidade.
Atualmente, 60% das
terras necessárias para a obra e que seriam inundadas pelo represamento
de água foram vendidas. Os 40% restantes são o trunfo que resta à
população como forma de resistência.
Laura conta que a tática
da CBA mudou nos últimos anos frente à resistência populacional. Ao
invés de tentar impor a construção de Tijuco Alto, passaram a organizar
uma série de assembléias com a população, que sempre votou em massa
contra o empreendimento. “Em 1994, houve uma audiência pública
fraudulenta em Cerro Azul. A CBA trouxe um ônibus de Sorocaba, com
funcionários de uma das suas plantas de produção de alumínio para votar
a favor da barragem. Os moradores do município não puderam entrar na
assembléia”, relata Laura.
Resistência Os grupos
interessados em Tijuco Alto têm defendido que a empreitada trará
geração de emprego e estimulará o turismo. Mas Laura contesta os
argumentos: “A geração de emprego é apenas enquanto durar a obra e o
turismo que eles falam é o náutico, que poucas pessoas têm acesso, não
é o rural e popular”.
Para Raul Silva Telles do Valle,
assessor jurídico do Instituto Socioambiental (ISA), uma das
organizações não-governamentais envolvidas na luta contra Tijuco Alto,
a demora para implementação da barragem se deve à resistência de
setores da sociedade civil, como as comunidades e ONGs locais e os
grupos sócio-ambientais, que lutam mobilizados até hoje. “Somos contra
o conjunto das barragens no Ribeira e a razão de elas serem
construídas”, afirma. “A nossa mobilização vem de 20 anos de luta para
não deixar que construam a barragem”, concorda Moraes.
A
construção da barragem suscita a discussão do uso e da finalidade do
rio e da energia elétrica produzida no Brasil. A questão esbarra na
privatização de um bem público no que se refere à água e à energia,
cujo uso deveria ser universalizado. “Tijuco Alto é um exemplo de um
modelo energético que beneficia determinados grupos, como o
empresariado, e traz pouco retorno econômico ou benefício social para a
região. Que direito a CBA tem de usar o rio para exportação maior do
que as populações locais que sobrevivem dele?”, questiona Valle.
“Estão
excluído do processo de consumo quem deveria ser incluído. É um modelo
excludente, que empobreceu a população. A população local não precisa
de usinas hidrelétricas; essa não é uma necessidade dos estados do
Paraná ou de São Paulo. É uma necessidade só da CBA. O uso é
particular. Quando você represa a água do rio, haverá um gestor do
espaço e da água; é privatização”, afirma Laura.
O último rio Além
de ser o único rio federal sem barragens, o Ribeira é também o último
de médio porte no Estado de São Paulo sem intervenção. “O Rio Ribeira é
o que chamamos de rio testemunha. No Vale, os rios se tornaram uma
série de lagos. São rios mortos, sem peixes, a não ser pelos de
criação. Todos os outros acabaram. A gente luta para mantê-lo para
lembrar de como seriam os demais sem as barragens”, afirma Valle.
A
região em questão tem um solo de rochas calcárias. “Não sabemos se o
solo vai resistir ao peso de toneladas de água represadas, que vai
deixar este solo ainda mais fragilizado. Haverá um efeito dominó sobre
as cavernas da região. O lugar abriga a maior área de cavernas da
América do Sul”, explica Laura.
Segundo a coordenadora do Cedea,
se houver qualquer problema de resistência nas barragens, toda a água
represada vai descer para os municípios de Adrianópolis, Cerro Azul e
Doutor Ulisses, que ficam 50 metros abaixo do nível da barragem e a
pouco mais de 100 quilômetros dela. A situação é pior se somada ao
prejuízo das áreas que serão inevitavelmente inundadas pela barragem,
afetando a vazão de água e o regime hídrico, o fluxo de peixes e a
produção agrícola, basicamente o cultivo da banana.
A usina
hidrelétrica intensifica ainda mais a contaminação de chumbo na região.
Até a década de 80, mineradoras exploravam o chumbo do solo, mas essas
empresas fecharam devido ao passivo ambiental. Ainda hoje, os solos e o
próprio leito do rio Ribeira não estão livres dessa contaminação.
Contudo, pelo fato de o chumbo ser um metal pesado, os seus resíduos
permanecem depositados no fundo do rio e assentados no solo. Com a
construção da usina hidrelétrica, esses resíduos retornariam à
superfície e, por meio de reações químicas, a contaminação seria
potencializada e mais agressiva, aumentando a exposição da população.
O
coordenador do MAB lembra que a região é muito úmida e as chuvas são
abundantes. Por esse motivo, a barragem não teria forças para segurar o
volume de água que aumenta muito durante a época de chuvas. “Hoje, eu
estou conversando com você e estou vendo o rio e ele não é o mesmo de
10 anos atrás: está seco, pelo assoreamento na sua cabeceira. A
construção da barragem será uma catástrofe sócio-ambiental”. Laura
afirma que a CBA promete o assentamento das famílias desalojadas pelo
empreendimento. “Mas assentar é diferente. Hoje, quem mora na região
tem trabalho, vive do rio, da água e da terra. O desenvolvimento é
sustentável”, conta. “Em Cerro Azul, não existia favelas. Hoje, a maior
dela tem 3 mil pessoas. O pessoal que se deslocou, depois que vendeu as
terras, hoje passa fome e antes não passava, porque não tem mais terra
para cultivar. Aqueles que deixaram suas terras na região do rio
acabaram se tornando favelados, bóias-frias ou operários da CBA na
região metropolitana de Curitiba”, conta.
Segundo o assessor
jurídico do ISA, o Vale do Ribeira é uma região com condições muito
especiais. A região concentra um grande número de comunidades locais e
contam com poucos recursos. “Com dinheiro público, vontade política,
parcerias e políticas públicas é possível desenvolver uma economia
sustentável”.
Hoje, as comunidades da região vivem da
agricultura e o molde de produção é familiar. “Nossa forma de
organização é diferente: a terra é coletiva. A forma de se relacionar
com o meio ambiente também. A gente produz só o que precisa para
sobreviver, é agricultura de subsistência. Vivemos também de artesanato
e turismo. A região do Vale do Ribeira é a maior área continua de Mata
Atlântica do país, e isso só foi preservado pelo cuidado das etnias da
região de quilombolas, indígenas, caiçaras e ribeirinhos. Temos a
preocupação de não desmatar muito e preservar aquilo que temos”, conta
Moraes, o morador da comunidade quilombola.
Fotos: Raul do Valle/ISA
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