Movimentos sociais de Brasil,
Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai, que trabalharam duramente para
recuperar serviços de água privatizados na década de 90, se reuniram na
cidade argentina de Córdoba para uma troca de experiências e definir
ações, agora que algumas empresas estão se retirando da região.
Por Marcela Valente
Córdoba, Argentina, 20/07/2006 – Movimentos sociais de Brasil,
Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai, que trabalharam duramente para
recuperar serviços de água privatizados na década de 90, se reuniram na
cidade argentina de Córdoba para uma troca de experiências e definir
ações, agora que algumas empresas estão se retirando da região. “O
grande desafio, talvez, maior até do que tivemos na luta para recuperar
as empresas de água privatizada, é a construção de uma gestão
alternativa deste recurso que seja pública e participativa”, disse à
IPS o porta-voz da Coordenadora pela Defesa da Água e da Vida da
Bolívia, Oscar Olivera.
Na Bolívia, o movimento contra a privatização de serviços de água
potável e saneamento existe há anos e teve, inclusive, cinco vitimas
fatais em mobilizações de rua em La Paz e El Alto, das quais
participaram 500 mil pessoas. Em 2000, os moradores resistiram a
aumentos nas tarifas de até 300%. A conta de água equivalia a 20% da
renda familiar. Agora, a corporação francesa Suez-Lyonnaise des Eaux –
com contrato de concessão por 40 anos, desde 1999 – está em processo de
retirada do país e a Bolívia contam com um Ministério da Água, além de
uma organização social disposta a participar da administração desse
recurso. “O governo de Evo Morales teve de cumprir o mandato e criou o
ministério”, explicou Olivera.
No contexto da 25ª Reunião de Cúpula do Mercosul, que aconteceu nesta
terça e quarta-feira na capital da província de Córdoba – 800
quilômetros a noroeste de Buenos Aires – organizações da sociedade
civil da região participam da Cúpula dos Povos pela Soberania e a
Integração, que termina nesta quinta-feira com uma caminhada pelas ruas
da cidade. Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela integram o
Mercosul. Nesse ambiente, a Comissão Popular pela Recuperação da Água
de Córdoba, formada por organizações sociais e sindicais e partidos
políticos, convocou entidades sul-americanas que trabalharam pela
recuperação da água em vários países para um debate sobre o fracasso da
privatização do setor e os modelos de gestão pública. No último ano, a
Suez se retirou, ou está em processo de retirada, da exploração de
serviços de água na Argentina, Bolívia e no Uruguai, que haviam sido
privatizados nos anos 90.
Para expor a experiência do manejo governamental falou Dieter Warshof,
da Associação de Empresas Municipais de Água e Esgoto do Brasil, que
representa cerca de 1.500 empresas gerenciadas por prefeituras
brasileiras, muitas delas com participação de organizações sociais. A
preocupação recorrente dos participantes é construir um “novo” modelo
de manejo desse recurso hídrico. “Fomos eficientes contra as empresas
privatizadas, mas não para propor um modelo alternativo”, afirmou o
argentino Alberto Muñoz, da província de Santa Fé. E nisto muitos
concordam.
Muñoz é membro da organização Usuários e Consumidores de Rosário, que
faz parte da Assembléia Provincial pelo Direito da Água em Santa Fé.
“Necessitamos mudar a idéia de empresa estatal pela de empresa pública
porque o Estado nem sempre representa os interesses públicos”, alertou.
“Temos que nos envolver”, ressaltou este ativista que em sua província
liderou o processo contra a privatização da empresa estatal de água,
controlada por Suez.
Anil Naidoo, coordenador da campanha internacional Blue Planet Project
(Projeto Planeta Azul), com sede no Canadá, foi o único convidado de
fora da América do Sul. “Neste processo é importante não substituir um
império por outro, saber muito bem o que queremos fazer”, destacou. Em
conversa com a IPS, Naidoo afirmou que a América do Sul é, neste
momento, “o coração do movimento pelo direito humano à água” e
assegurou que “é nesta região onde estão sendo criadas novas idéias
sobre como manejar o recurso. O movimento é forte e por isso queremos
apoiá-lo”, disse entusiasmado.
O sindicalista Luis Bazá, que coordena a comissão popular de Córdoba
para a reestatização da água, ressaltou a oportunidade do encontro.
“Queremos articular uma mesma política sobre o manejo da água da água
no Mercosul, para que seja considerada um bem público e um direito
essencial”,disse à IPS. “Vamos pedir aos presidentes que isto seja
institucionalizado, porque em alguns países as empresas privadas estão
se retirando pela persistência dos movimentos sociais, mas há casos
ainda contraditórios, como o da Argentina” afirmou.
O presidente Néstor Kirchner rescindiu este ano o contrato com a Suez
sobre concessão do serviço de água e saneamento na cidade de Buenos
Aires e arredores e criou uma nova empresa pública. Na província de
Santa Fé ocorreu algo semelhante. Muñoz recordou que a companhia
francesa, que desfrutaria do negócio por 30 anos, ficou apenas 10 no
país. Contratos não-cumpridos, aumentos injustificados de tarifas e a
má qualidade do serviço forçaram sua retirada, no começo deste ano,
como ocorreu em outros países. Por pressão da assembléia formada em
Santa Fé, o governo impôs a saída a saída da Suez. Agora, 50% da Águas
de Santa Fé pertencem ao governo provincial, 40% aos municípios e 10%
aos sindicatos.
“É uma transição, não é o que queremos. Mas,pelo menos conseguimos
derrotar a empresa privatizada que não era totalmente eficiente. Para
nós, isto é como a etapa final da era da privatização, porém queremos
maior participação de universidades e organizações sociais no controle
da empresa”, afirmou Muñoz. Por outro lado, em Córdoba o movimento de
resistência conseguiu que a Suez anunciasse sua saída este ano, mas não
consegue fazer com que o governo provincial aceite o controle do
serviço. A administração ofereceu transferir as ações para outra
companhia privada, de capital nacional, e a comissão popular impugnou
esse ato nos tribunais.
“O contrato impede que o operador técnico transfira as ações para outra
empresa”, afirmou Bazán, e nisso se baseou sua representação na
justiça. Enquanto o conflito não se resolve, o movimento analisa qual
caminho seguir. No momento, observa as experiências na região e sabe
que é o que não quer. A participação de sindicatos na gestão da água e
vetada por quase todas as organizações que resistiram à privatização.
“Defendem interesses corporativos, quando não diretamente os das
empresas privadas”, queixou-se o boliviano. Todos concordam que uma
nova companhia pública deve partir da idéia de considerar a água como
um bem social, não uma mercadoria, e seu acesso é um direito humano
básico. Imaginam subsídios cruzados para que quem tem mais pague mais,
e que seja proibido suspender o serviço por inadimplência.
“O presidente Kirchner reestatizou a empresa Águas Argentinas e criou a
Água e Saneamento S.A., mas detectamos que a nova companhia estatal
também corta o serviço por falta de pagamento, e não é isso que
queremos. Outro participante, da província de Rio Negro, recordou que
em seu distrito o serviço de água nunca foi privatizado, mas acabou
parcialmente entregue ao manejo de companhias particulares. “A
esvaziaram e não fizeram nada de bom”, contou.
No Uruguai, um plebiscito em 2004 habilitou a reforma da Constituição
para declarar a água como bem público e proibir a privatização de
serviços de distribuição e saneamento. Pouco depois caíram as
concessões das empresas Águas da Costa, da espanhola Águas de Barcelona
(filial da Suez) e Uraguá (subsidiária, por sua vez, da Águas de
Bilbao) que controlam o serviço no departamento de Maldonado.
Entretanto, Sebastián Valdomir, da Rede Amigos da Terra – membro da
Comissão Nacional em Defesa da Água e da Vida no Uruguai – disse à IPS
que as companhias recorreram ao Centro Internacional de Acerto de
Diferença de Investimentos (CIADI), do Banco Mundial, para conseguir
ressarcimentos. “Devemos iniciar uma campanha regional de denúncia
desta estratégia das empresas. A água não pode estar sujeita ao que diz
o CIADI”, afirmou.
Por fim, Olivera, da Bolívia, considerou que mesmo havendo vontade dos
novos governos sul-americanos no sentido de avançar na reestatização,
resta muito por fazer. Em seu país estão sendo elaboradas propostas
para levar à Assembléia Constituinte para gerar espaços de
participação. “É preciso, agora, desprivatizar a política, acabar com o
monopólio da palavra dos dirigentes e começar a ouvir o que as pessoas
querem”, recomendou. (IPS/Envolverde)
Crédito: BBC
(Envolverde/ IPS)
|